
No vasto tabuleiro da geopolítica mineral, as terras raras ocupam um lugar estratégico e cada vez mais indispensável. Esses elementos, embora o nome sugira outra coisa, não são exatamente “raros” na crosta terrestre — ocorrem em abundância relativa, mas são difíceis de concentrar e separar economicamente. Os avanços tecnológicos, desde os primórdios da mineração até os reatores químicos e as promissoras nanotecnologias atuais, vêm transformando a forma como esses minerais são extraídos, processados e aplicados em produtos que sustentam a sociedade contemporânea.
Das tecnologias antigas à revolução moderna
Historicamente, a separação e o beneficiamento das terras raras foram processos artesanais e rudimentares. Durante o século XIX e boa parte do século XX, as técnicas se baseavam em métodos clássicos de mineração e metalurgia: trituração da rocha, separações físicas por densidade, e sucessivas etapas de precipitação química. Esses métodos eram demorados, poluentes e pouco eficientes, pois os minerais de terras raras — como a monazita, bastnaesita e xenotima — costumam estar associados a outros elementos radioativos ou contaminantes.
Com o surgimento de equipamentos modernos de extração e purificação, como circuitos de lixiviação controlada, colunas de troca iônica e solventes orgânicos especializados, houve um salto de qualidade. Mas ainda assim, a produção mundial continuou concentrada em poucos países, notadamente a China, que hoje responde por cerca de 80% da cadeia global.
Atualmente, tecnologias disruptivas vêm redefinindo o setor: desde reatores hidrometalúrgicos de alta precisão, que permitem controlar variáveis críticas (temperatura, pressão, acidez) de forma automatizada, até técnicas de separação nanotecnológica, capazes de capturar íons específicos em escalas moleculares, com muito menos resíduos e menor consumo energético.
O que são terras raras?
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos que pertencem ao bloco dos lantanídeos da Tabela Periódica, acrescidos do escândio e do ítrio. São eles:
- Lantânio (La)
- Cério (Ce)
- Praseodímio (Pr)
- Neodímio (Nd)
- Promécio (Pm)
- Samário (Sm)
- Európio (Eu)
- Gadolínio (Gd)
- Térbio (Tb)
- Disprósio (Dy)
- Hólmio (Ho)
- Érbio (Er)
- Túlio (Tm)
- Itérbio (Yb)
- Lutécio (Lu)
- Escândio (Sc)
- Ítrio (Y)
Por trás desses nomes pouco familiares, estão propriedades que fazem desses metais ingredientes vitais da transição energética e da indústria de alta tecnologia: são usados na fabricação de superímãs permanentes, catalisadores, baterias recarregáveis, telas de smartphones, turbinas eólicas, carros elétricos e equipamentos militares.
O Brasil e seu potencial geológico
Pouca gente sabe, mas o Brasil possui uma das maiores reservas potenciais de terras raras do planeta, com destaque para depósitos em:
- Minas Gerais, sobretudo na região de Araxá, onde a mineradora CBMM já extrai nióbio e estuda a produção de terras raras associadas.
- Pitinga, no Amazonas, tradicionalmente conhecida pela produção de estanho, mas que abriga depósitos promissores.
- Poços de Caldas (MG) e Buena, no Amapá, áreas estudadas pelo Serviço Geológico do Brasil e por pesquisadores de diversas universidades.
Estima-se que, com o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nacional, o Brasil poderia se tornar um importante player nesse mercado estratégico. Atualmente, porém, a produção brasileira ainda é modesta e enfrenta barreiras tecnológicas e econômicas.
Dificuldades tecnológicas na extração
O grande desafio da produção de terras raras não é apenas extrair o minério, mas separar cada elemento de forma pura e controlada, já que eles costumam ocorrer juntos em concentrações pequenas. Entre os principais obstáculos, destacam-se:
- A necessidade de reatores químicos sofisticados, que operem processos de lixiviação e precipitação com altíssimo controle de pH, temperatura e tempo de residência.
- O alto custo de insumos reagentes e solventes especiais usados na separação.
- O potencial impacto ambiental de rejeitos radioativos e resíduos tóxicos.
- A ausência de um parque industrial nacional de alta capacidade para refino e transformação desses óxidos em ligas metálicas.
Sem superar essas barreiras, o país continuará a exportar concentrados de baixo valor agregado e importando os produtos finais a preços elevados.
Os superímãs e a nanotecnologia: caminhos promissores
Um dos usos mais importantes das terras raras são os superímãs permanentes, como os ímãs de neodímio-ferro-boro, que equipam turbinas eólicas e motores de carros híbridos e elétricos. Segundo pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), dominar o ciclo completo — da extração ao superímã acabado — é fundamental para consolidar soberania tecnológica.
Nessa direção, o Brasil começa a investir em:
- Novos reatores hidrometalúrgicos, capazes de processar lotes menores com altíssima pureza, economizando reagentes.
- Nanotecnologia aplicada, por exemplo, nanopartículas magnéticas funcionais que capturam íons específicos de neodímio ou disprósio diretamente das soluções, reduzindo etapas convencionais.
- Parcerias com centros de pesquisa, como a Universidade de São Paulo (USP) e o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), para escalar processos piloto.
- Incentivos do Ministério de Minas e Energia ao mapeamento e exploração sustentável de jazidas estratégicas.
Se essas iniciativas forem integradas a políticas industriais de longo prazo, o Brasil poderá finalmente agregar valor aos seus próprios recursos minerais, em vez de exportar riqueza in natura.
Conclusão
As terras raras simbolizam o paradoxo de um país rico em recursos, mas historicamente dependente da tecnologia estrangeira para transformá-los. Da mineração rudimentar do passado às promissoras soluções de nanotecnologia, a jornada brasileira rumo a uma cadeia produtiva autônoma ainda é longa, mas nunca esteve tão cheia de oportunidades.
Dominar os processos de extração e refino, investir em centros de pesquisa e atrair indústrias de ponta são caminhos indispensáveis para que o Brasil deixe de ser apenas fornecedor de matéria-prima e se torne protagonista na economia global da alta tecnologia e da transição energética.
Referências
- Instituto de Pesquisas Tecnológicas. Superímãs de terras raras. Atualizado em 28 de abril de 2025. Disponível em: ipt.br/2025/04/28/superimas-de-terras-raras/ linkedin.com+15ipt.br+15ipt.br+15
- Jornal da USP. Valiosas e versáteis: pesquisas com terras raras mostram caminho para criar cadeia produtiva no Brasil. Publicado em 19 de novembro de 2021. Disponível em: jornal.usp.br/ciencias/valiosas-e-versateis-pesquisas-com-terras-raras-mostram-caminho-para-criar-cadeia-produtiva-no-brasil/ pt.wikipedia.org+9jornal.usp.br+9poli.usp.br+9
- Ministério de Minas e Energia (MME). Minerais estratégicos: Terras Raras são utilizados para produção de turbinas eólicas e carros híbridos. Publicado há cerca de 1,7 anos. Disponível em: gov.br/mme/pt-br/assuntos/noticias/minerais-estrategicos-terras-raras-sao-utilizados-para-producao-de-turbinas-eolicas-e-carros-hibridos
Deixe um comentário