
Por décadas, o plástico foi celebrado como símbolo de modernidade. Pode parecer distante hoje, mas não faz muito tempo que comprar um refrigerante era quase um ritual: você precisava levar a garrafa de vidro vazia até o balcão, trocá-la por uma cheia e voltar para casa com cuidado para não quebrar. O mesmo acontecia com potes de iogurte, garrafas de leite e embalagens de conservas.
Quando as embalagens plásticas chegaram, tudo mudou. Elas trouxeram:
- Comodidade — eram leves, resistentes e descartáveis.
- Acessibilidade — reduziram custos e popularizaram produtos industrializados.
- Higiene — impediram vazamentos e contaminações.
Foi uma verdadeira revolução do consumo. De repente, não era mais necessário carregar recipientes pesados ou guardar potes para devolver depois. Tudo passou a ser fácil e rápido.
O Custo da Comodidade
No entanto, essa conveniência teve consequências graves.
Estima-se que 400 milhões de toneladas de plásticos sejam produzidas todos os anos, e apenas cerca de 9% são efetivamente recicladas. O restante acaba em aterros, rios e oceanos, onde pode permanecer por mais de 400 anos sem se degradar.
Ao longo desse tempo, o plástico se fragmenta em partículas minúsculas — os microplásticos — que contaminam a água, os alimentos e até o ar que respiramos.
Basta olhar ao redor: sacolas voando nas ruas, garrafas boiando nos rios, embalagens soterradas em lixões. Era claro que precisávamos de soluções.
Biotecnologia: Entre a Produção e a Degradação
A boa notícia é que a ciência está oferecendo alternativas inovadoras. A biotecnologia tem trabalhado em duas frentes complementares para enfrentar a crise do plástico:
1) Bactérias Que PRODUZEM Bioplásticos Sustentáveis
Algumas espécies bacterianas funcionam como fábricas microscópicas capazes de criar plásticos naturais. Por exemplo, microrganismos como a Cupriavidus necator produzem dentro de suas células um composto chamado PHA (polihidroxialcanoato).
O processo funciona assim:
1) As bactérias crescem em grandes tanques chamados biorreatores, alimentadas por açúcares ou resíduos agrícolas.
2) Quando ficam sem nutrientes como nitrogênio, passam a armazenar o PHA como reserva de energia, formando pequenos grânulos.
3) Esse “plástico natural” é extraído, purificado e transformado em pellets.
Os produtos finais são muito parecidos com o plástico comum, mas têm uma diferença essencial: são completamente biodegradáveis. Em condições de compostagem ou no solo, se decompõem em semanas ou poucos meses.
Entre os itens que já podem ser feitos com esses bioplásticos estão:
- Sacolas, embalagens e potes descartáveis.
- Filmes agrícolas que somem no solo após o uso.
- Materiais médicos, como suturas que se dissolvem no corpo.
2) Bactérias e Fungos Que DEGRADAM o Plástico Convencional
Por outro lado, a biotecnologia também tem revelado microrganismos capazes de “devorar” plásticos derivados do petróleo, mesmo aqueles que hoje poluem oceanos e aterros.
O caso mais conhecido surgiu em 2016, no Japão, quando pesquisadores descobriram uma bactéria chamada Ideonella sakaiensis. Ela produz enzimas especiais, chamadas PETase e MHETase, que conseguem quebrar moléculas de PET — o plástico das garrafas de refrigerante — em pedaços menores que outras bactérias podem consumir.
Outros exemplos incluem:
- O fungo Aspergillus tubingensis, capaz de decompor filmes plásticos em poucas semanas.
- Diversas espécies de bactérias marinhas que degradam polietileno (usado em sacolas).
Cientistas estão estudando formas de potencializar essas enzimas, criando misturas que possam ser aplicadas em centrais de reciclagem ou até em aterros sanitários, acelerando a decomposição de plásticos que, sozinhos, levariam séculos para sumir.
O Futuro Que Se Desenha
Essas duas estratégias — produzir plásticos biodegradáveis e acelerar a degradação dos que já existem — são complementares. Elas oferecem um caminho para manter a praticidade que tanto valorizamos, sem repetir os erros do passado.
Se antes a comodidade veio sem planejamento, hoje é possível unir inovação e responsabilidade. Imagine um mundo em que:
- Os produtos descartáveis somem naturalmente no ambiente.
- Os resíduos antigos sejam quebrados por enzimas e bactérias.
- As próximas gerações não precisem herdar montanhas de lixo.
A biotecnologia está nos mostrando que esse futuro é possível.
Conclusão
Da garrafa de vidro retornável à sacola plástica descartável, percorremos um longo caminho em poucas décadas. Agora, chegou o momento de dar o próximo passo: produzir e descartar de maneira inteligente, usando a força silenciosa dos microrganismos para transformar nossa relação com o plástico.
Talvez ainda demore algum tempo para que essas soluções se tornem comuns em todos os cantos do planeta, mas cada pesquisa, cada inovação e cada escolha de consumo consciente nos aproximam de um futuro mais limpo — e mais equilibrado.
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